Poemas participantes da enquete ( Em teste )

25 de março de 2013

Confissões



Doutor,
Estou aqui nem sei porquê...
Talvez para tentar conhecer
Os vários seres que me habitam
Todos, uma variação de mim mesmo
(como uma versão distinta do eu)
Cá estou eu
Sentindo-me como numa forca moderna
Sob um céu de concreto tudo me parece cinza
Neste cubículo tudo é novo, mas meu conteúdo é idoso
Devo dissecar, escancarar e esvaziar meu interior
Correntes me confundem, algo particular me prende
E na ausência de algo peculiar não me identifico
Travo e tudo o mais que disser será duvidoso
Não sei ao certo como te contar
Que sou feito de tudo um pouco...
Habitam lado a lado Bem e Mal
Doçura e perversidade coexistem
Entrelaçam-se, manifestam-se
Interagindo em Saara e sal
E pinto estrelas em meu céu particular
Saem de mim gotículas de um azul infinito
E volto a sorrir enxugando a teimosa lágrima...
Ainda há chance para o mundo que vejo!
E sigo a pensar que nem tudo está perdido...
Confesso-me metamorfose
Um ser tranquilo e sensato, tempestade e ventania
Um conjunto de contradições e certezas
Amor e ódio, carinho e desapego
Música e silêncio, razão e poesia...
Poesia... sou poeta!
Em mim habitam os mais lindos versos
Também os piores pensamentos
No meu coração tocam canções maravilhosas
E planos diabólicos são gerados
Na minha alma habita o sagrado
Pelos meus poros escapa o profano
Quem sou eu?
Sou as diversas imagens que penetram os olhos
Daqueles que me olham de viés
Anos de terapia e alguns fantasmas continuam aqui
Em algum lugar dentro do peito,
Acorrentados ou presos em um baú pesado como o mundo
Baú em que guardo velhas canções, alguns amores,
Vários fracassos, incontáveis erros e medos...
Muitos medos!
Algumas vezes preciso abrir o baú
E de lá escapam assombros do meu passado
Trazendo pra mim coisas que não quero lembrar
Ou que preciso esquecer...
Retiro de lá algum sonho que ainda valha a pena reviver
Olho de frente para aquilo que me assombra,
Me machuca, me coloca em xeque
A tua paciência me dá forças e alguma coragem para abrir o baú
E olhar pra dentro dele com autoridade
Você me dá segurança, um norte
Contar-te tudo isso é ver-me sem espelhos,
Sem meia luz, sem metáforas... sem baús...
Só eu, você e meus amargos segredos!
Confesso...
Sou uma farsa! Um paradoxo!
Para cada um que se apresenta
Ofereço o meu “eu” conveniente
Sim... é isso... como diz o ditado
‘a ocasião faz o ladrão’!
Já estou a desconfiar que possa estar vivendo
O conto do Sábio Chinês:
Estaria eu dormindo
Sonhando estar num divã de frente a um doutor
Ou seria eu o próprio doutor,
Imaginando a mim mesmo como um paciente do divã?

Um comentário:

  1. "...
    Quem sou eu?
    Sou as diversas imagens que penetram os olhos
    Daqueles que me olham de viés
    ..."

    Muito bom Pea, adorei. PARABÉNS!

    ResponderExcluir

Quem sou eu

Gosto de escrever. Escrever para mim é uma necessidade, uma cura. Escrever é um ato de extrema entrega, é de dentro pra fora. Escrevo por urgência, escrevo por amor e com amor. Sou imediatista, intensa, e sonhadora! Defeitos? Tenho muitos, incontáveis talvez; melhor nem dizê-los.; Tenho uma alma sonhadora. Sonho, e como sonho...

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...