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20 de janeiro de 2015

Heróis da Infância

Heróis da Infância





Eu tenho uma lista de heróis. Alguns descobri já adulta, e outros trago da infância.
É verdade também que tenho a lembrança de alguns vilões. Vilões medonhos, que não raramente frequentam a imaginação das crianças: Bicho papão, o Homem do Saco, a Mulher de Branco, Tindoida, o Carroceiro e tantos outros que os pais, na ânsia de controlar o pequeno mais danado, acabam criando e alimentado com eficácia durante algum tempo.

Eu tinha uns sete ou oito anos quando nos mudamos para a vila. Uma vila composta por umas 20 casas ( todas coloridas ); dez de cada lado.
A vila não tinha  saída pelos fundos, o que dava a impressão de corredor. Entrada e saída por um único portão na frente.

A primeira casa da vila era a única sem cor, lembro dela como se fosse cinza ,eu tinha calafrios quando passava sozinha por lá.

Mudinha era a dona da casa sem cor, E tinha entre 30 e 40 anos, não se sabe ao certo. Era alta, forte, cabelos ruivos e cacheados, tinha um olhar endurecido e nenhum dente sequer, tinha a pele avermelhada e envelhecida pelo sol.

Mudinha era chamada assim por ser muda, talvez ninguém soubesse seu nome. Talvez nem ela mesmo soubesse.
Mudinha era o pior pesadelo das crianças da vila.
Ela não tinha filhos, não tinha marido, não tinha família. Mudinha não tinha nada, só a casa sem cor que me assustava.
A casa sem cor tinha um porão onde ela guardava os pertences de crianças desaparecidas, diziam. 

Muitas vezes, na volta da escola, eu cruzava o portão da vila já anoitecendo e rezava baixinho para não encontrar Mudinha.
Às vezes ela estava na sua varanda, sem verde e sem flor, sentada numa cadeira velha de palha, observando o entra e sai da vila,  e quando eu cruzava o portão, podia sentir o seu olhar me acompanhando até a minha casa.

Mudinha emitia grunhidos. Toda vez que alguém falava, ela entendia e emitia grunhidos na tentativa de responder.

Certa vez, cheguei em casa e ouvi minha mãe explicando o serviço da casa para a nossa nova faxineira, como resposta ouvi grunhidos. Uma luz de alerta se acendeu na minha cabeça. Minha mãe só podia estar ficando maluca. Ela tinha contratado Mudinha como faxineira. Sem dúvida minha mãe havia perdido o juízo e logo, logo perderia os filhos também. E nossos pertences seriam friamente armazenados no porão da casa sem cor da Mudinha.

Nos dias que se seguiram eu quase não saía de perto de minha mãe, Mudinha estava sempre lá em casa, mesmo quando não era dia de faxina, e eu e meu coraçãozinho aflito fazíamos companhia um ao outro.
Os dias se passaram, as semanas se acumularam no calendário da minha conta de quantos dias me restavam.

Um dia descobri que Mudinha sorria...Mudinha sabia sorrir com o olhar. 
Depois, aos poucos e bem devagar, fui descobrindo Mudinha. Descobri que ela fazia o melhor misto quente que já comi na vida e descobri que ela gostava de assistir desenhos comigo, que arrumava minhas coisas com carinho e que jamais poderia ter feito mal a uma mosca.
O tempo passou e nos tornamos bem próximas. Ela me mostrou sua casa por dentro, e era assustadoramente limpa e simples. Ah... e não tinha porão.
A comunicação continuou sendo um problema, não gostava quando ela grunhia, mas conseguíamos de alguma forma nos comunicar. 

No final da tarde, quando eu voltava da escola,  Mudinha passou a me esperar na entrada da vila e lá íamos nós duas, ela segurando minha mãozinha vila adentro, até a porta de minha casa, e eu me sentia importante por estar ao lado dela.

Um dia, meu pai resolveu que iríamos morar em outro estado.
Vendemos a casa e antes de irmos chorei abraçada a Mudinha. 
Fomos embora e nunca mais eu soube dela. 

Se ela estiver viva, talvez nem se lembre mais de mim. Mas eu jamais a esquecerei. 

Mudinha encabeça a minha lista de heróis da infância

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Quem sou eu

Gosto de escrever. Escrever para mim é uma necessidade, uma cura. Escrever é um ato de extrema entrega, é de dentro pra fora. Escrevo por urgência, escrevo por amor e com amor. Sou imediatista, intensa, e sonhadora! Defeitos? Tenho muitos, incontáveis talvez; melhor nem dizê-los.; Tenho uma alma sonhadora. Sonho, e como sonho...

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