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20 de janeiro de 2015

Seu Lauro

Seu Lauro



Faz uns 10 anos, fiz amizade com seu Lauro. Senhor de cabeça branquinha, sorridente, conversador, educado e pontual.
Seu Lauro morava perto da minha casa, e sempre que eu saía a pé para deixar minha filha na escola, eu o via sentado numa cadeira ao lado do portão de sua casa.
Estava sempre bem arrumadinho, perfumado e tinha ao lado sua bengala.

Quando nos via passar,  bem humorado, dizia: " Lá vai a princesinha estudar para ser doutora ". Quando tínhamos tempo, eu parava por cinco minutos, para que ele brincasse com minha filha. Em pouco tempo ela já o chamava de vovô, o quê,  o deixou bem contente.

De tantos cinco minutos dedicados a breves papos, já sabia que seu Lauro era viúvo e morava com sua filha, que aliás só conheci muito tempo depois.

Nos meses de dezembro a maio chove muito aqui na minha terra, e apesar da escola ser bem pertinho de casa, nesses dias íamos de carro e não encontrávamos seu Lauro, mas quando voltávamos a passar por lá ele dizia: " Essa chuva que não me deixa ver a princesinha". Isso me comovia.

Assim, passaram-se os anos a princesinha de dois anos chegou aos dez, e seu Lauro acrescentou ao seu rosto mais algumas marcas do tempo.

Certo dia passei por lá e a cadeira do seu Lauro estava vazia, e no outro dia, e no outro, no outro, quando me dei conta já fazia alguns dias que o mesmo vazio estava presente, e isso fez com que meu pensamento parecesse uma martelada. Tive medo de ouvir o que pensava.

Cadê Seu Lauro?

Olhei, e percebi a casa fechada, bati, chamei, e ninguém veio. Perguntei para a vizinha que varria a calçada e me olhava curiosa, se ela saberia me dizer onde estavam todos, e ela me respondeu: " Você não sabe? Seu Lauro faleceu,  a filha foi embora... Vão vender a casa".

Olhei para a cadeira vazia que agora pegava sol e chuva e senti vontade de guardá-la.

Engraçado como as coisas acontecem na vida da gente , e não nos damos conta.
Todas as minhas conversas com seu Lauro, foram ali, na calçada e eram breves cumprimentos e rápidas manifestações de afeto. Sem que eu percebesse,  aquele velhinho de cabeça branca como algodão, tinha entrado na minha história. E eu ainda lamento que tenha partido.

Hoje minha filha já tem 13, e eu raramente passo em frente a casa do seu Lauro, mas quando passo, olho para lá com carinho. Tenho certeza que o lugar está impregnado com a bondade que era lhe era inerente.

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Quem sou eu

Gosto de escrever. Escrever para mim é uma necessidade, uma cura. Escrever é um ato de extrema entrega, é de dentro pra fora. Escrevo por urgência, escrevo por amor e com amor. Sou imediatista, intensa, e sonhadora! Defeitos? Tenho muitos, incontáveis talvez; melhor nem dizê-los.; Tenho uma alma sonhadora. Sonho, e como sonho...

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